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XIII
   OLAVO BILAC.

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

A ÁRVORE DA SERRA.
                   Augusto dos Anjos.

- As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!

- Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pos almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...

- Disse - e ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não mate a árvore, pai, para que eu viva!"
E quando a árvore, olhando a pátria serra,

Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!

ABANDONADA.
             Augusto dos Anjos.

Bem depressa sumiu-se a vaporosa
Nuvem de amores, de ilusões tão bela;
O brilho se apagou daquela estrela
Que a vida lhe tornava venturosa!

Sombras que passam, sombras cor-de-rosa
- Todas se foram num festivo bando,
Fugazes sonhos, gárrulos voando
- Resta somente um'alma tristurosa!

Coitada! o gozo lhe fugiu correndo,
Hoje ela habita a erma soledade,
Em que vive e em que aos poucos vai morrendo!

Seu rosto triste, seu olhar magoado,
Fazem lembrar em noute de saudade
A luz mortiça d'um olhar nublado.

ARROZ DE CARRETEIRO.
                        JAYME CAETANO BRAUN.

Nobre cardápio crioulo das primitivas jornadas,
Nascido nas carreteadas do Rio Grande abarbarado,
Por certo nisso inspirado, o xiru velho campeiro
Te batizou de "Carreteiro", meu velho arroz com guisado.

Não tem mistério o feitio dessa iguaria bagual,
É xarque - arroz - graxa - sal
É água pura em quantidade.
Meta fogo de verdade na panela cascurrenta.
Alho - cebola ou pimenta, isso conforme a vontade.

Não tem luxo - é tudo simples, pra fazer um carreiteiro.
Se fica algum "marinheiro" de vereda vem à tona.
Bote - se houver - manjerona, que dá um gostito melhor
Tapiando o amargo do suor que -
às vezes, vem da carona.

Pois em cima desse traste de uso tão abarbarado,
É onde se corta o guisado ligeirito - com destreza.
Prato rude - com certeza,
mas quando ferve em voz rouca
Deixa com água na boca a mais dengosa princesa.

Ah! Que saudades eu tenho
dos tempos em que tropeava
Quando de volta me apeava
num fogão rumbeando o cheiro
E por ali - tarimbeiro, cansado de bater casco,
Me esquecia do churrasco saboreando um carreteiro.

Em quanto pouso cheguei de pingo pelo cabresto,
Na falta de outro pretexto indagando algum atalho,
Mas sempre ao ver o borralho onde a panela fervia
Eu cá comigo dizia: chegou de passar trabalho.

Por isso - meu prato xucro, eu me paro acabrunhado
Ao te ver falsificado na cozinha do povoeiro
Desvirtuado por dinheiro à tradição gauchesca,
Guisado de carne fresca, não é arroz de carreteiro.

Hoje te matam à Mingua, em palácio e restaurante
Mas não há quem te suplante,
nem que o mundo se derreta,
Se és feito em panela preta, servido em prato de lata
Bombeando a lua de prata sob a quincha da carreta!

Por isso, quando eu chegar,
nalgum fogão do além-vida,
Se lá não houver comida já pedi a Deus por consolo,
Que junto ao fogão crioulo,

Quando for escurecendo, meu mate -amargo sorvendo,
A cavalo nalgum tronco, escute, ao menos, o ronco
De um "Carreteiro" fervendo. 

AS POMBAS.
                    RAIMUNDO CORREIA.

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

A VELHICE.
                    OLAVO BILAC.

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas...

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

CHIMARRÃO.
                  GLAUCUS SARAIVA.

Amargo doce que eu sorvo
Num beijo em lábios de prata.
Tens o perfume da mata
Molhada pelo sereno.
E a cuia, seio moreno,
Que passa de mão em mão
Traduz, no meu chimarrão,
Em sua simplicidade,
A velha hospitalidade
Da gente do meu rincão.

Trazes à minha lembrança,
Neste teu sabor selvagem,
A mística beberagem,
Do feiticeiro charrua,
E o perfil da lança nua,
Encravada na coxilha,
Apontando firme a trilha,
Por onde rolou a história,
Empoeirada de glórias,
De tradição farroupilha.

Em teus últimos arrancos,
Ao ronco do teu findar,
Ouço um potro a corcovear,
Na imensidão deste pampa,
E em minha mente se estampa,
Reboando nos confins ,
A voz febril dos clarins,
Repinicando: "Avançar"!
E então eu fico a pensar,
Apertando o lábio, assim,
Que o amargo está no fim,
E a seiva forte que eu sinto,
É o sangue de trinta e cinco,
Que volta verde pra mim.

CICLOS...
                 DWILDE.

Antes eu sorria,
livremente, incontidamente!
Depois veio o silêncio,
pungente, deprimente!
Logo eu chorava,
copiosamente, despudoradamente!
Agora as lágrimas apenas rolam,
suavemente, recatadamente!
Em breve o sorrisos,
o silêncio e o pranto,
virão novamente,
completando ciclos
de amor incandescente!

CRIMES NOTURNOS.
                                                          DWILDE

Pela janela do apartamento, meu sono foi roubado
quando o apito de um trem estuprou o silêncio da noite,
abortando os meus sonhos.
Vi, estarrecido, nesse instante,
que a hora derradeira do domingo,
instigada pelos segundos, cometera suicídio.
Parecendo natimorta, a segunda-feira estava ali, imóvel.
Um mosquito ousou cruzar o espaço aéreo e foi abatido.
Matei a sede, usurpando a água de um cálice alheio,
e voltei para a cama sufocando a vontade de matar todas as horas.
O frio me mantinha em cárcere privado sob as cobertas
e logo adormeci, envenenado pelos meus pensamentos.
Quando acordei resolvi denunciar todos os crimes,
inclusive os meus.
O sol prendeu-me para sempre e, ao contrário dos presos comuns,
minhas saídas temporárias são somente noturnas.


EIS O HOMEM.
                    MARCO AURÉLIO CAMPOS.

Brotei do ventre da Pampa
que é Pátria na minha Terra.
Sou resumo de uma guerra
que ainda tem importância.

E, diante de tal circunstância,
Segui os clarins farroupilhas
E devorando coxilhas,
Me transformei em distância.
Sou do tipo que numa estrada
Só existe quando está só.
Sou muito de barro e pó.
Sou tapera, fui morada.
Sou a velha cruz falquejada
Num cerne de curunilha.
Sou raiz, sol farroupilha,
Renascendo estas manhãs,
Sou o grito dos tahas
Coejando sobre as coxilhas.

Caminho como quem anda
Na direção de si mesmo.
E de tanto andar a esmo,
Fui de uma a outra banda,
E se a inspiração me comanda,
Da trilha logo me afasto
E até sementes de pasto
Replanto pelas vermelhas
Estradas velhas parelhas,
Ao repisar no meu rastro.

Sou a alma cheia e tão longa,
Como os caminhos que voltam
Substituindo os espinhos
E a perda de alguns carinhos.
Velhos e antigos afrontes,
Surgiram muitos, aos montes,
Nesta minha vida aragana,
Destas andanças veterana,
De ir descampando horizontes.

Sou a briga de touros
No gineceu do rodeio.
Improtério em tombo feio,
Quando o índio cai de estouro.
Sou o ruído que o couro faz,
Ao roçar no capim.
Sou o rin-tim-tim da espora
Em aço templado.
E trago o silêncio guardado,
Do pago dentro de mim.

Fazendo vez de oratório,
Sou cacimba destampada,
De boca aberta, calada,
Como a espera do ofertório.
Como vigia em velório,
Que tem um jeito que é tão seu.
Tem muito de terra... é céu,
Que a gente sente ajoelhando,
De mãos postas levantando
O pago inteiro para Deus.

Sou o sono do cusco amigo,
Dormindo sobre o borralho.
Sou vozerio do trabalho,
Na guerra ou na paz - sou perigo.
Sou lápide de jazigo
Perdido nalgum potreiro.
Sou manha de caborteiro,
Sou voz rouca de acordeona,
Cantando triste e chorona,
Um canto chão brasileiro.

Sou a graxa da picanha
Na bexiga enfumaçada,
Sou cebo de rinhonada.
Me garantindo a façanha.
Sou voz de campanha,
Que nos lançantes se some.
Sou boi-ta-tá - lobisomem.
Sou a santa ignorância.
Sou o índio sem infância,
Que sem querer ficou homem.

Sou Sepé Tiarajú,
Rio Uruguai, rio-mar azul,
Sou o cruzeiro do sul,
A luz guia do índio cru.
Sou galpão, charla, Sou chirú,
de magalhanicas viagens,
Andejei por mil paisagens,
Sem jamais sofrer sogaço.
Cresci juntando pedaços
De brasileiras coragens.

Sou enfim, o sabiá que canta,
Alegre, embora sozinho.
Sou gemido do moinho,
Num tom triste que encanta.
Sou pó que se levanta,
Sou raiz, sou sangue, sou verso.
Sou maior que a história grega.
Eu sou Gaúcho, e me chega
P'rá ser feliz no universo. 

EU E A RUA...
                    DWILDE.

Vou só a caminhar por uma rua.
Rua deserta,
uma rua qualquer.
Rua sozinha,
nem é rua sequer.

Os passos, compassos em espaços de saudade.
Saudade de você que dói e deleita.
A rua cansada, pisada, chateada, se deita.
E a lua no alto, olhando prá rua,
é só vaidade.

Vou só a caminhar por uma rua.
Rua deserta,
uma rua qualquer.
Rua sozinha,
nem é rua sequer.

ERA UMA VEZ...
                           DWILDE.

Era uma vez...uma viagem encantada,
tantas vezes adiada,
que acabou cancelada!

Era uma vez...um sonho encantado,
tantas vezes desdormido,
que acabou adormecido!

Era uma vez...um amor encantado,
tantas vezes preterido,
que acabou esquecido!

Era uma vez...uma vida encantada,
tantas vezes malferida,
que acabou desfalecida!

Era uma vez...

INTIMATE VERSES.
                  Augusto dos Anjos.
                 (Translated by Nelson Ascher)

No one attended, as you 've seen, your last
Chimera's awe-inspiring funeral.
Ingratitude - that panther - has been all
Your company, but it has been steadfast!

Get used to mud: soon it will hold you fast!
Man living among wild beasts on this foul
And sordid earth cannot resist the call
To turn himself as well into a beast.

Here, take a match. Now light your cigarette!
A kiss is but the eve of being spat,
A stroking hand, my friend, may stone you too.

If your great wound still saddens anyone,
Cast at that vile hand stroking you a stone,
Spit straight into the mouth that kisses you!

“LA COGIDA Y LA MUERTE “
                      FEDERICO GARCIA LORCA.

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco da la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.
 .
El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
Cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.
.

Un ataúd con ruelas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oídeo
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El quarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A los lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde,
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!

LIBELO.
                     VINÍCIUS DE MORAES.
 
De que mais precisa um homem senão de um pedaço de mar – e um barco com o nome da amiga, e uma linha e um anzol pra pescar ?

E enquanto pescando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos, uma pro caniço, outra pro queixo, que é para ele poder se perder no infinito, e uma garrafa de cachaça pra puxar tristeza, e um pouco de pensamento pra pensar até se perder no infinito...
 
De que mais precisa um homem senão de um pedaço de terra - um pedaço bem verde de terra - e uma casa, não grande, branquinha, com uma horta e um modesto pomar; e um jardim – que um jardim é importante – carregado de flor de cheirar ?

E enquanto morando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos para mexer a terra e arranhar uns acordes de violão quando a noite se faz de luar, e uma garrafa de uísque pra puxar mistério, que casa sem mistério não valor morar...
 
De que mais precisa um homem senão de um amigo pra ele gostar, um amigo bem seco, bem simples, desses que nem precisa falar - basta olhar - um
desses que desmereça um pouco da amizade, de um amigo pra paz e pra briga, um amigo de paz e de bar ?
 
E enquanto passando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de suas mãos para apertar as mãos do amigo depois das ausências, e pra bater nas costas do amigo, e pra discutir com o amigo e pra servir bebida à vontade ao amigo ?

De que mais precisa um homem senão de uma mulher pra ele amar, uma mulher com dois seios e um ventre, e uma certa expressão singular ? E enquanto pensando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de um carinho de mulher quando a tristeza o derruba, ou o destino o carrega em sua onda sem rumo ?
 
Sim, de que mais precisa um homem senão de suas mãos e da mulher - as
únicas coisas livres que lhe restam para lutar pelo mar, pela terra, pelo amigo ..."

MINHA GRANDE TERNURA.
                       MANUEL BANDEIRA.

Minha grande ternura
Pelos passarinhos mortos;
Pelas pequeninas aranhas.

Minha grande ternura
Pelas mulheres que foram meninas bonitas
E ficaram mulheres feias;
Pelas mulheres que foram desejáveis
E deixaram de o ser.
Pelas mulheres que me amaram
E que eu não pude amar.

Minha grande ternura
Pelos poemas que
Não consegui realizar.

Minha grande ternura
Pelas amadas que
Envelheceram sem maldade.

Minha grande ternura
Pelas gotas de orvalho que
São o único enfeite de um túmulo.

O ANJO DE PERNAS TORTAS.
                             VINICIUS DE MORAES.

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés – um pé-de-vento!

Num só transporte a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: – Goooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um 1. É pura dança!

O MAPA.
                      MÁRIO QUINTANA.

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(E nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Ha tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Ha tanta moca bonita
Nas ruas que não andei
(E ha uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...

O TEMPO.
                   MÁRIO QUINTANA.

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado...
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas...
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo...
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

PAISANO.
                    LUIZ MENEZES.
 
Um dia chegou de longe,
Nunca se soube de donde...
Chapéu quebrado na testa
E um lenço preto ao pescoço
Negro como pensamento
De uma china despeitada.

E afinal ficou de peão,
Da estância de "Seu" Quirino.
Primeiro que levantava
Ao canto do quero-quero
Pra impessar a lida do dia,
E quando lhe davam um alce,
Passava grozeando os cascos,
De um rozilito cinzento,
Pingo que era um pensamento
Segundo seu comentário.

Ninguém sabia seu nome,
Talvez, nem mesmo o patrão.

Mas quando de noitezita
A indiada puxava um banco,
Em derredor do fogão,
Lá sobe um canto solito,
Um pinho entrava de manso
Cantando coisas bonitas,
que faz a gente pensar.

E finalmente a peonada
Se acostumou com o estranho
Pra todo mundo da estância,
Era o paisano. No mas!

Talvez por seu mutismo,
Despertava nas mulheres,
Caprichos de coração.

Porém muito maneiroso
Fazia sempre segredo,
Quando por necessidade
Precisava do carinho
De alguma china qualquer.

Depois, voltava solito,
Ao trote do seu rosilho,
Levando para os pelegos,
Mais uma história de amor.

E finalmente aos pouquitos
Por ser pronto servidor,
Foi conquistando a amizade
Desde a peonada ao patrão.

E foi num final de tarde,
Que alguém entrou no galpão
E disse pros que mateavam
Que uma patrulha do povo
Buscava um sorro qualquer.

O que se ouviu de repente,
Foi uma voz que de um canto
Falou por primeira vez,
Dizendo apenas - To aqui!

Foi como se lá do céu.
Um trovão se desgrudasse
Preludiando temporal.

Logo o galpão foi sitiado
Pela patrulha do povo,
A até parece mentira,
Que um indiozito tão quieto,
Pudesse ser tão ligeiro
Na hora do ferro branco.

Quando cessou o reboliço,
Os gritos do entrevero,
Jaziam lá no terreiro
Três índios ensangüentados.

E a longe, na polvadeira,
O rozilito cinzento
De cascos bem aparados,
Debandava potros Nortes,

Talvez para a banda Oriental.
Levava apenas no lombo
Um guapo e quieto paisano,
Que um dia chegou de longe,
Nunca se soube de donde.  

POR VOCÊ NÃO ESTAR AQUI...
                                      DWILDE.

O dia amanheceu cinzento,
como se fosse um lamento,
por você não estar aqui...

Todo triste foi o resto,
como se fosse um protesto,
por você não estar aqui...

Devagar foi terminando,
como se estivesse chorando,
por você não estar aqui...

A noite chegou de mansinho,
como um pranto bem baixinho,
por você não estar aqui...

PRIMAVERA... 
                                 WLADIMIR BORGES
Augusta primavera
que amansa a fera
em seus braços de mel.
Na explosão de flores
traduz em cores
o lapidar do fel
desta lâmina fria
que feriu-me o peito
e me fez sem jeito
escorrer num leito
esquecer o inverno
e acordar no céu!


PROCURA.
                                 WLADIMIR BORGES

A vida se abre em caminhos
e amanhã será um lindo dia
Para os que acreditam no colorido de seu coração
na luminosidade interior
que enche de luz e combra, claridade e mistérios o nosso mundo.
Nós, espectadores e diretores
da vida e da morte
do amor e do ódio
da ilusão e da realidade
da juventude e da velhiced espirituais
de todos sonhos possíveis
e da força de torná-los possíveis.
Da vontade de viver o presente
que ontem foi futuro
e amanhã será passado
com a marca de nossos passos na estrada
que pisamos com força
para que a história nos torne eternos
lutadores sonhadores
abrindo sorrisos em meio a suor e lágrimas.
A vida é bela porque o sol que nasce no horizonte
também pode nascer no nosso coração
basta abrir o peito
e sentir o brilho nos olhos
das pessoas que procuram no horizonte
os caminhos das verdades do mundo!!!


RECEITA DE ANO NOVO.
                       Carlos Drummond de Andrade.
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

SAUDADES!
                   DWILDE.

Tenho saudades
do meu tempo de guri!
Da "funda", da bola de gude,
do pião e da pesca de lambari!

Tenho saudades
do meu tempo de guri!
Da pandorga, do botão de mesa,
do "arquinho" e do pé de caqui!

Tenho saudades
do meu tempo de guri!
Do "taco-no-buraco", das "peladas",
e do meu pai que já não está mais aqui!

Tenho saudades
do meu tempo de guri!
Mas a maior saudade que tenho
é do amor que não vivi!!!

SONETO DA FIDELIDADE.
                       VINÍCIUS DE MORAES.

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
 
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
 
Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

SONETO DA SEPARAÇÃO.
                         VINÍCIUS DE MORAES.
 
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

TRAGÉDIA BRASILEIRA.
                           MANUEL BANDEIRA.

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade,
Conheceu Maria Elvira na Lapa, - prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e o dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa. Viveram três anos assim.   Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.   Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato,
Inválidos...   Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

VERSOS ÍNTIMOS.
                   Augusto dos Anjos.

Vês?!  Ninguém assistiu ao formidável 
Enterro de tua última quimera. 
Somente a Ingratidão - esta pantera - 
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera! 
O Homem, que, nesta terra miserável, 
Mora, entre feras, sente inevitável 
Necessidade de também ser fera. 

Toma um fósforo.  Acende teu cigarro! 
O beijo, amigo, é a véspera do escarro, 
A mão que afaga é a mesma que apedreja. 

Se a alguém causa inda pena a tua chaga, 
Apedreja essa mão vil que te afaga, 
Escarra nessa boca que te beija!

VOU-ME EMBORA PRA PASSÁRGADA.
                      MANUEL BANDEIRA.

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha falsa e demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.